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Just One Drop

Assista ao Trailer de Just One Drop.
Um documentário sobre a homeopatia
A história por trás da controversia sobre a homeopatia

 

Sessão única no Auditório do Mackenzie, Rua Piauí, 130 - Higienópolis -SP

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UM DIA DE SANITARISTA

 

Apesar de ter feito o curso de especialização em Saúde Pública antes mesmo de começar com a farmácia homeopática, por razões de como a vida foi acontecendo, nunca pude exercer esta atividade de forma mais plena, a não ser na assistência farmacêutica realizada dentro da farmácia homeopática. Não se trata de indicação de medicamentos, mas sim de aproveitar todas as disciplinas como Materno-Infantil, Nutrição, noções de Oftalmologia, Dermatologia Sanitária e tantas outras. Compreensão e orientação básica de saúde para meus clientes.

A Saúde Pública foi o caminho para chegar até a Homeopatia: o fato de prever a atuação de agentes, hospedeiro e meio ambiente para o desenvolvimento de uma doença, mesmo sem considerar a Lei da Semelhança, já nos distancia da visão tradicional do motivo de adoecermos.

Um convite, porém, da Dra. Margarida Vieira, homeopata de Florianópolis, trouxe novas oportunidades. A idéia era administrar Meningococcinum à população de Blumenau, já que havia a incidência de diversos casos. Primeiro, fui chamada para fornecer o Meningococcinum, como já havia ocorrido há alguns anos atrás, quando uma campanha foi realizada em municípios próximos à capital catarinense. Posteriormente, foi decidido que o ideal seria refazer o medicamento a partir de uma nova amostra de doente do local, desta epidemia. Para lá dirigiram-se dois colegas farmacêuticos, que dinamizaram material coletado de uma garota de Blumenau, que inclusive foi a óbito por meningite. Decidiu-se partir da cultura da Neisseria inativada por autoclave, para evitar acusações à Homeopatia, caso novos casos aparecessem entre aqueles que recebessem o Meningococcinum. A potência a ser utilizada seria a 30CH, em dose única de uma gota, por via oral.

Mesmo não preparando o medicamento, fui chamada para acompanhar e auxiliar no dia da campanha. Margarida e eu fomos para Blumenau na véspera, chegando bem a tempo de entrevistas coletivas com a imprensa. O secretário da saúde, médico simpatizante da Homeopatia, assim como o coordenador da campanha, homeopata, respondiam a perguntas, tentando incentivar a população a comparecer aos centros de saúde, para receber o medicamento. É claro que, no dia seguinte, diversos equívocos esperados, como chamar de “vacinação contra meningite”, apareceram nos jornais.

Logo em seguida, reunião com funcionários dos diversos centros de saúde: médicos, enfermeiros e auxiliares, todos ansiosos pelo trabalho no dia seguinte, alguns recebendo muito bem a novidade, e outros oferecendo resistência. De qualquer maneira, muitas e muitas dúvidas. Como proceder? Surgiriam efeitos colaterais? Adultos poderiam receber o medicamento? O que fazer com a vacinação de rotina?

A decisão de não divulgar esta ação com muita antecedência era para evitar a organização dos esperados opositores da Homeopatia.

Chegou o dia! Outros colegas, médicos e farmacêuticos homeopatas, chegaram de São Paulo ou de Florianópolis para ajudar! Os frascos de Meningococcinum já estavam nos centros de saúde do município, porém a informação da população era pequena, e as dúvidas dos médicos e auxiliares continuavam. O coordenador da campanha permaneceu na Secretaria da Saúde para esclarecer dúvidas, e atender imprensa, médicos e à população, pelo telefone. Um hospital central foi destacado para atender a possíveis casos de efeitos colaterais mais graves que surgissem.

Nós, os voluntários, saímos em viaturas, acompanhados por motoristas que conheciam todas as “quebradas” dos caminhos, pelo interior do município, com mais material e extrema boa vontade. Para uma paulistana foi uma experiência e tanto: campos, montanhas, uma população bonita e bem cuidada! Metade dos caminhos eram “de chão”, mas mesmo nas escolas mais distantes, as crianças estavam calçadas, bem vestidas, com aparência saudável. Creches muito simples, porém limpas e cuidadas. Que diferença para a periferia da minha cidade!

Pela manhã, era pequeno o movimento. Parávamos em todas as escolas e creches, e nos centros de saúde, com cópias do ofício do Secretário da Saúde, convocando a população. A campanha estava marcada apenas para aquele dia, e a maior parte dos diretores das escolas nos recebiam e lamentavam a dificuldade para avisar os pais dos alunos. Visávamos uma população até 20 anos, a mais vulnerável à meningite, e pedíamos que os menores de idade fossem aos serviços de saúde acompanhados dos pais ou responsáveis.

Reunimo-nos no horário do almoço, trocamos nossas experiências, fizemos uma avaliação rápida e refizemos planos. Mais escolas deveriam ser avisadas. Os frascos de medicamento já estavam acabando em algumas unidades. As viaturas já não eram suficientes e saí a pé pela cidade, para visitar algumas escolas centrais. Uma delas, coincidentemente, ao lado da Secretaria da Educação. Entrei também lá para tentar um contato, apresentando-me como “em nome do Secretário da Saúde de Blumenau”. Surpresa! Já haviam contatado a Secretaria da Educação, perguntando da tal campanha, e ficaram contentes com as informações e a cópia do ofício do Secretário da Saúde, solicitando divulgação. Repassaram fax para todas as escolas municipais, pedindo adesão.

Durante a tarde, os primeiros levantamentos indicavam que as metas iniciais já haviam sido cumpridas. O rádio e a TV locais noticiavam a “vacinação”. O telefone não parava de tocar. Decidiu-se ampliar a campanha para a manhã seguinte, dia de jogo do Brasil, quando as unidades fechariam ao meio-dia. Infelizmente tinha de voltar a São Paulo e não acompanhei pessoalmente o que ocorreu então. A população, agora avisada, queria participar. Pais saiam de seus trabalhos para levar os filhos aos centros de saúde. Moradores de municípios vizinhos iam a Blumenau. Filas enormes formaram-se, e houve muito trabalho para os funcionários. O próximo dia, uma 5ª feira, foi feriado. Foi necessário ampliar a campanha para a 6ª feira, possibilitando o preparo de mais medicamento, disponível para todos os interessados.

Uma avaliação posterior da incidência da doença parece demonstrar um menor número de casos em Blumenau, quando comparado com seus arredores. Infelizmente, com o aumento incrível da procura por parte da população, não foi possível registrar os indivíduos que receberam o Meningococcinum, prejudicando os dados para um trabalho de avaliação metodologicamente correto.

A algumas conclusões pudemos chegar: pôde-se perceber que a população aceita o medicamento homeopático, inclusive com finalidade preventiva. Por outro lado, a já esperada oposição dos médicos não homeopatas também existiu: organizaram-se contra o Secretário da Saúde, abrindo um processo contra sua iniciativa.

Em uma nova experiência, será importante considerar a necessidade de um maior número de pessoas treinadas para trabalhar em uma campanha deste tipo, diferente das tradicionais campanhas de vacinação.

Esperamos ainda poder concluir sobre a eficácia do Meningococcinum na prevenção da meningite.

Minha experiência como sanitarista, porém, foi inesquecível e agradeço muito à Margarida pela oportunidade.

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CENAS EM UMA FARMÁCIA HOMEOPÁTICA

Texto escrito em 1998.

Em 1998, tínhamos uma pequena farmácia em Pinheiros, zona oeste da cidade de São Paulo. Esse era nosso dia a dia. Parece incrível que depois de tanto tempo, as situações se repitam. Os problemas e as necessidades quase não mudam...

Cena 1 (ouvindo no telefone):

Oi, Adriana! Aqui é o Dr. ........ Como você sabe, eu sou o novo Presidente da Associação Homeopática .......... Pois é, como presidente, minha função é desenvolver usuários, e também entre a população em geral. Por isto, estou pensando em fazer uma Jornada em novembro, no dia da Homeopatia. E sabe, eu conto com o apoio de vocês no patrocínio. Precisa fazer uma mala direta, pastas, cartazes, canetas. Quero trazer aquele professor argentino também, além de uns palestrantes do Rio, de Sao Paulo e de Recife. Posso contar com você? Vou mandar detalhes por fax, esta bem?

Cena 2 (outra vez no telefone):

Adriana, tudo bem? É a Dra. ............ Eu comecei a atender no Centro Assistencial Bezerra de Menezes, aos sábados, e temos um problema: os pacientes são da periferia, carentes, e não podem comprar remédios. Eu estou pensando se nós não podemos conversar, para tentar uma forma de fornecimento especial. É um projeto social, você sabe. Bem legal! Claro, gostaria muito que você viesse visitar, conhecer como é. Será que dá para chegar a um acordo? Sei lá, a doação de uma “farmacinha”, com frascos limpos de dose, que eu mesma possa embalar. Você tem uma ideia melhor? Então posso passar aí na farmácia amanhã para conversarmos? Então, até lá. Um abraço. Obrigada.

Cena 3 (na farmácia): Entra uma mãe, simples, com um bebê no colo, e mais duas crianças, de uns quatro e sete anos. Meio rasgadinhos, meio sujinhos...

- Bom dia, moça! Será que tem aí um remedinho de erva prá bronquite do meu filho do meio aqui? Ele fica ruinzinho, chiando, perde o ar, quase fica roxo... A gente leva nos médicos, mas não adianta... Volta tudo outra vez... É só tomar uma chuvinha, mudar o tempo, e ataca... Uma vizinha falou duns remédios de ervas que curaram a filha dela. Será que tem aqui?

- Nós não vendemos remédios homeopáticos sem receita. A senhora vá a um médico homeopata, e volte com a receita, que eu preparo os medicamentos.

- Éita!!! Precisa de médico? Mas é de erva, ela não foi no médico não... A senhora não é doutora, não?

- Sou farmacêutica. Sinto muito, só com receita médica.

- E onde tem médico desses remédios de ervas? É caro? Eu não posso pagar não...

- Bom, aí é um problema. Aqui na cidade não tem não, mas lá em ....... tem uma associação que atende de graça... mas tem fila. Demora uns seis meses para atender...

- Hiii!! Vou procurar um raizeiro que tem lá pros lados de casa, ver se ele tem algum chá, alguma erva... Obrigada, moça. Pensei que ia ajudar...

- Olha, eu até gostaria, mas não posso fazer nada pela senhora.

Cena 4 (conversa entre a farmacêutica e seu marido, administrador de empresas, funcionário em uma indústria de grande porte):

- Ufa! Finalmente acabei! Blatta orientallis 1000CH! Levei duas semanas para fazer esse remédio... Não é bárbaro! Olha, todos os vidrinhos na gaveta, guardados de 10 em 10! Puxa, são 100 frascos! Tive que pegar uma gaveta extra!

- Duas semanas dinamizando? Quanto custou?

- Ah! Vou cobrar o preço normal. Sabe, vai para o estoque.

- E vai aparecer outro paciente precisando do mesmo remédio?

- É difícil... É um remédio que sai pouco... ainda mais em CH... Mas, olha só, não é uma beleza? 1000 passos a mão, com 100 sucussões no braço!

- Não sei não. Eu não faria. Mas, diga uma coisa... O paciente esperou tanto tempo?

- Nem sei... Ele ficou de ligar para o médico, para ver se podia ser em fluxo. Não ligou mais... Mas eu já fui adiantando. De qualquer forma, já está feito. É menos um para dinamizar.

- Bem, você não pensa que neste tempo todo que você perdeu, você poderia atender melhor a seus clientes, ficando lá na frente, no balcão, conversando com eles? Eu vejo tanta gente que chega aqui só querendo atenção, só querendo conversar...

- Puxa, você não entende mesmo... Não vê que um 1000CH, ainda mais de Blatta, é alguma coisa especial? Fica só pensando em quanto custou e quanto vou cobrar... Só pensa em dinheiro!

- É, mais esta farmácia tem que ir para frente, tem que se pagar. Como eh que você vai fazer tudo o que você quer: cursos, congressos, anúncios, o computador novo... Precisa dinheiro para isso. Você precisa aprender a administrar sua farmácia, até para melhorar em Qualidade, como você tanto fala. Os recursos tem que vir daqui mesmo! Não adianta você direcionar-se pelo produto! Tem que pensar no cliente: nos que vem até aqui e nos médicos homeopatas!

O farmacêutico homeopata convive com suas ansiedades técnicas e suas ansiedades de consciência em relação à classe mais carente, pela qual pouco pode fazer diretamente. Pode doar medicamentos para atendimentos sociais... mas... não participa diretamente do processo. Fica com a parte da mercadoria.

Vive dividido em relação a seus clientes: deve ficar no balcão, atendendo e conversando com eles? Ou preparar pessoalmente os medicamentos? Em relação a seus clientes principais, os médicos homeopatas, a relação nem sempre é tranquila.

Qual é o papel do farmacêutico? O que é a qualidade tao falada de uma farmácia? Como “medir” a qualidade de um medicamento? Como fica o lucro, esse vilão, que insulta o purista e põe comida na mesa do farmacêutico? O farmacêutico pode/deve indicar medicamentos? A quem deve fidelidade, ao médico, de quem é dependente, ou ao cliente/paciente, de onde vem o recurso? O que é mais importante, o remédio ou o cliente? O medicamento é o único remédio?

Nos dias atuais, qualquer jornal ou revista que fale de negócios ou comércio, ensina que “você tem que investir em seu cliente”. Isto vale para os negócios em geral. Investir no cliente, é investir no médico e no paciente. Isso vale para a farmácia homeopática.

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