Dinamização, Mágica de Hahnemann

Escrito por Amarilys Cesar.

Imagem de Samuel Hahnemann



As mudanças que ocorrem em substâncias materiais, especialmente nas medicinais, através da trituração com pó não medicinal, ou quando dissolvida, através da agitação com um fluido não-medicinal, são tão incríveis, que aproximam-se de miraculosas, e é motivo de alegria que a descoberta destas mudanças pertença à Homeopatia."

Hahnemann, Doenças Crônicas

 

 

RESUMO

As dinamizações representam as soluções medicinais utilizadas pela terapêutica homeopática para tratamento dos pacientes. Mesmo fazendo parte da formação dos clínicos homeopatas, há muito desconhecimento a respeito das diferentes técnicas de preparo. Diferenças nas técnicas de dinamização, e nas de dispensação das soluções dinamizadas em veículos inertes, influem na quantidade de dinamização que o paciente recebe, possivelmente afetando sua reação clínica. O objetivo do texto é abordar diversos aspectos da dinamização, especialmente a diluição e a agitação, em suas várias escalas e métodos, com a finalidade de uma maior compreensão do processo, auxiliando os clínicos a atingir melhores resultados terapêuticos. Foram utilizadas análise de literatura histórica e atual, assim como nossa experiência na área farmacêutica homeopática. A discussão abordou diversos aspectos ainda pouco conhecidos, demonstrando a necessidade da realização de mais pesquisas, a serem realizadas através da união de homeopatas clínicos e farmacêuticos, assim como pesquisadores de várias áreas.

PALAVRAS-CHAVE

Homeopatia; dinamização; farmacotécnica homeopática; medicamento homeopático.

SUMMARY

Dynamizations are medicinal approaches by homeopathic therapeutics to treat patients. Although homeopaths are trained in these techniques, there is often insufficient knowledge about the different techniques available to prepare homoeopathic remedies. These techniques, such as the dosage of dynamized solutions in inert vehicles, influence the amount of dynamization the patient receives, possibly affecting his or her clinical reaction. The objective of this text is to review several aspects of dynamization, particularly dilution and agitation, using several scales and methods, with the aim of achieving a enhanced understanding of the process, and thereby helping clinicians to achieve better therapeutic results. An analysis of historic and current bibliography was used, as well as our experience in homeopathic pharmacy. The discussion involved several hitherto unknown areas, indicating a need for more research to be carried out with the participation of both clinical and pharmaceutical homeopaths, and researchers from different areas.

KEY WORDS

Homeopathy, dynamization, homeopathic pharmaco-technique, homeopathic medicine.

 

INTRODUÇÃO

Quando se pensa em medicamento homeopático, algumas idéias logo vem à nossa mente: uma é que eles são muito diluídos. Conhecendo um pouco mais, logo se diz que são "dinamizados". Mas qual é mesmo o significado disto? Como é feita a dinamização? Como são produzidos os medicamentos?

Chamamos de "dinamizar" ao conjunto das operações de diluir e agitar soluções. Este fundamento nos foi apresentado por Hahnemann, desenvolvido através de reflexões e também de maneira intuitiva, ao longo de sua vida, enquanto buscava formas para melhor aplicar a Lei da Semelhança no tratamento de doentes. Apesar de se tratar do procedimento fundamental no preparo de medicamentos homeopáticos, no contato com os profissionais clínicos, e portanto prescritores, percebe-se que há muito desconhecimento e dúvidas que podem gerar mal entendidos, expressos em receitas que nem sempre estão adequadas do ponto de vista farmacêutico. Uma vez que a receita é o documento que indica ao farmacêutico o medicamento escolhido pelo médico para tratar os pacientes, qualquer dúvida deve ser evitada, para que o tratamento homeopático evolua de maneira satisfatória. Assim sendo, ainda que este artigo trate de temas comumente abordados em aulas de formação homeopática para médicos, dentistas e veterinários, tem como objetivo divulgar e abordar diversos aspectos da dinamização, especialmente a diluição e a agitação, em suas várias escalas e métodos, com a finalidade de uma maior compreensão do processo, auxiliando os clínicos a obter melhores resultados terapêuticos.

DESENVOLVIMENTO

Freqüentemente encontramos a expressão "diluir e dinamizar" em diversas obras nacionais, e não "diluir e agitar". É verdade que ao agitarmos uma solução previamente diluída, estamos concluindo a dinamização. Daí, a palavra "dinamizar" sendo usada no lugar de "agitar", isto é, pelo resultado final da operação. Kayne lembra que dinamização é sinônimo de sucussão na França. Apesar de menos usado, o termo mais adequado seria "potencializar", uma vez que acredita-se que o processo aumente a ação homeopática (Kayne, 1997).

Porém importa mesmo é a caracterização de um novo processo, criado por Hahnemann. Pela primeira vez uma técnica que envolve uma intensa diminuição da quantidade da matéria, propõe que o resultado seja uma solução ativa, e segundo muitos autores, quanto mais diluída, mais potente. É certo que a própria palavra dinamizar envolve a raiz grega dynamis, que Hahnemann usou até mesmo em alemão, e significa "força, potência" (Hahnemann, 1995). O tradicional dicionário da língua portuguesa, Aurélio, em sua edição eletrônica, registra ainda a palavra dinamização como "segundo a homeopatia, liberação da energia terapêutica de um medicamento mediante diluição ou cominuição."

Uma vez que o produto das dinamizações é chamado de "potência", novamente aparece a idéia de que o aumento da atividade seja diretamente proporcional ao número de vezes que o duplo processo diluir-agitar é realizado. Analisando o receituário clínico podemos perceber que esta é a crença dos profissionais que prescrevem medicamentos homeopáticos: geralmente começam com potências mais baixas, que vão subindo nas próximas prescrições. Dados de pesquisa básica têm sugerido antes uma atividade que pode ser graficamente descrita como uma senóide (uma curva que sobe e desce, como uma tábua de marés), do que uma reta inclinada (que poderia ser traduzida por "quanto maior a potência, maior a atividade da solução"). Encontra-se entre homeopatas ainda a descrição de "potências que não funcionam", talvez confirmando a hipótese das pesquisas. Portanto, um dado interessante seria verificar, através de protocolos clínicos adequados, qual o comportamento da resposta clínica em função das dinamizações (Boiron, 1991; Bastide, 1997; Davenas et alii, 1988).

Considerando que há atividade clínica nas soluções dinamizadas que foram diluídas além mesmo do número de Avogrado, o primeiro fato a considerar é que estamos contrariando a lógica estabelecida pela farmacologia clássica (efeitos dose-dependentes), e que Hahnemann propôs isto a 200 anos atrás. Passado o primeiro susto, sobrevêm a vontade de conhecer mais detalhes sobre este efeito. Vamos verificar alguns dados sobre processos manuais e mecânicos para diluição e agitação, as variáveis que influenciam estes processos, assi